Software livre não é sinônimo de software gratuito. Por mais que andem de mãos dadas, existe sim uma conta a ser paga, e queria expor algumas idéias sobre esta conta invisível que alguém está pagando.

Antes de discorrer sobre isso queria indicar duas ótimas leituras sobre o assunto:

  1. The Cathedral and the Bazaar
  2. Wikinomics

O primeiro é um clássico dos entuastas de software livre. Eu comprei há uns três anos numa feira de livro e adorei a leitura. É considerada uma das primeiras literaturas que analisa e conceitua o fenômeno/movimento de software livre.

O segundo é um livro mais recente que usa estudos sobre empresas do calibre de IBM, Google e outras para demonstrar como a escolha pela adoção do modelo de compartilhamento e construção coletiva de conhecimento (em alguns projetos específicos) ajudou muito a formar o perfil de empresas para a chamada nova economia.

Eu sinto falta de mais material na área de antropologia/psicologia que ajude a clarear o que são motivações altruístas e o que é simplesmente uma nova forma de economia/capitalismo. Eu acredito que exista uma mistura dos dois, mas adoraria ler alguns ensaios sobre isso. Isto me lembra um pouco o trabalho dos biólogos Maturana e Varela onde eles expõe que muitos sacrifícios individuais de certas espécies de animais são no fundo uma estratégia de sobrevivência em uma escala macro. Em outras palavras há quem diga que não existe altruísmo verdadeiro. Mas aí não existiria amizade sincera, paixão, e voluntarismo de qualquer forma. Espero que estejam enganados 🙂 [3]

Vou deixar o filosobol de lado. Do ponto de vista prático então, de onde vêm o dinheiro? No caso específico do Blender, quem está financiando seu desenvolvimento?
Dêem uma olhada na lista de contribuidores do desenvolvimento do Blender 2.49.

A primeira coisa que você encontrará é uma lista de empresas/fundações que diretamente financiaram o projeto. Com exceção da Blender Foundation todos os outros patrocinadores precisavam de uma funcionalidade específica dentro do Blender, e o melhor caminho para vê-la implementada foi através da contratação direta de alguém para fazê-lo. Em geral são funcionalidades órfãs dentro do programa, ou muito complicadas de se implementar, ou simplesmente muito chatas de ser feitas por voluntários.

Além disso existe uma lista com 31 desenvolvedores que fizeram “contribuições relevantes” a esta versão do Blender. Tentei organizar estes nomes dentro de alguma ordem e veja o que encontrei:

  • 3 fazem freelancers como desenvolvedores e também program voluntariamente
  • 3 usam o Blender para alguns de seus trabalhos, mas desenvolvem em suas horas livres
  • 4 fizeram parte do Google Summer of Code (e continuam mantendo suas contribuições)
  • 5 trabalham com o Blender em tempo integral, desenvolvendo em suas horas de trabalho
  • 7 são 100% voluntários – não trabalham diretamente com o Blender. Alguns arrecadam doações em seus sites
  • 9 eu não sei 🙂

Esta salada multi-nacional mostra que ainda não há um perfil definido de quem desenvolve para o programa. Eu pessoalmente adoro ver mais e mais pessoas fazendo dinheiro com desenvolvimento do Blender. Por mais que eu admire quem possa dispor de tempo livre para ajudar no projeto, acho que um sistema econômico em que profissionais possam desenvolver em seu horário de trabalho é um forte aliado para a sobrevida de projetos livres.

Há inclusive uma grande e crescente demanda por treinamento técnico para estúdios que querem ter seus próprios desenvolvedores “dentro de casa”. Um exemplo que gosto de citar é o de nossos hermanos da Licuadora Studio que mesmo sendo composto de apenas quatro integrantes, justificam a existência de um programador trabalhando tempo integral – o grande Diego Borghetti. Este é o mesmo princípio de organização dos Open Projects da Blender Foundation, artistas e desenvolvedores trabalhando lado a lado. A grande diferença é que um estúdio inserido no mercado às vezes tem que lidar com preocupações financeiras que a fundação não tem.

A propósito, existe inclusive um livro que vai sair este ano que pode interessar a quem está montando seu estúdio com o Blender – Blender Studio Projects: The Open-Source Animation Pipeline. Claudio Andaur é um dos autores e a pessoa a frente do Licuadora Studio, estou super ansioso para lê-lo.

Falei demais e ainda teria muito mais pra falar 🙂 Vou parar por aqui lembrando que ainda existe todo um leque de trabalho importante para o software livre que é a parte de criação de documentação (livros, wiki, tutoriais, blog), e contribuições como envio de bugs, testes, sugestões de funcionalidades, divulgação do programa, . . .

Grandes abraços,
Dalai

Links e notas extras:

[1] – http://en.wikipedia.org/wiki/The_Cathedral_and_the_Bazaar – disponível para download, ou em cópia impressa
[2] – http://www.wikinomics.com – disponível como livro e com atualizações no site
[3] – Existem ótimos autores que analisam o lado pragmático do casamento e sua função como reprodutor de uma ordem social. Um deles que eu li na faculdade e adorei foi BERGER. Mas agora vai explicar isto para um casal apaixonado 😉
[4] – http://wiki.blender.org/index.php/Template:Release_Notes/2.49/Contributors
[5] – http://www.licuadorastudio.com/ Licuadora Studio – estúdio argentino muito bom
[6] – http://www.amazon.com/Blender-Studio-Projects-Open-Source-Animation/dp/0470543132 – Blender Studio Projects: The Open-Source Animation Pipeline – pré-venda no amazon

* este post foi inspirado em uma discussão surgida na lista de emails blenderbrasil-dev, local espontâneo (e de portas abertas) de encontro entre desenvolvedores, ativitistas, artistas e profissionais que de uma forma ou de outra estão envolvidos com seriedade na construção da comunidade brasileira de Blender.

2 Thoughts on “Blender 3D, quem paga a conta?

  1. Excelente abordagem sobre o assunto Dalai!

    Esse é um tema complicado na área do software livre. Ainda tem gente que reluta em acreditar que existem custos, e muito grandes, até por trás de softwares livres como Blender e outros.

    Se você quiser adicionar na bibliografia, ainda temos o “O Mundo é Plano” que tem um excelente trecho sobre software livre.

  2. Pingback: Blender 3D, quem paga a conta? « Blender Evolution

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